O Primeiro Turno
Eu nem sei mais por onde começar, pra ser sincero. Minha memória, ultimamente, parece uma estante de supermercado com um monte de coisa faltando. Mas o que lembro, ah, o que lembro… isso não sai. Começou com a vaga, sabe? Eu estava desesperado, sem grana, e vi um anúncio meio malfeito, rabiscado à mão, pregado num poste. Dizia ‘Precisa-se de atendente noturno. Mercearia do Nunca. Pagamento em dinheiro. Urgente.’ Mercearia do Nunca. Já o nome era estranho, mas quem liga pra nome quando o estômago ronca?
O lugar ficava num canto esquecido da cidade, onde as ruas mal tinham iluminação. Parecia que o GPS bugava ali, porque levava uns vinte minutos pra achar o caminho certo toda vez. A mercearia em si era uma construção antiga, de tijolos escuros, com uma placa de neon piscando em vermelho, ‘ABERTO 24 HORAS’, mas algumas letras estavam apagadas, então parecia ‘ABERTO 24 HORAS’. A fachada era suja, o cheiro de mofo e desinfetante velho misturados. Entrei e toquei a sineta enferrujada. Ninguém.
Depois de uns segundos que pareceram uma eternidade, um velho surgiu de trás de um balcão empoeirado. Magro, cabelo ralo e uns olhos fundos que pareciam ter visto coisas demais. Ele se apresentou como Seu Elídio, o dono. Perguntou meu nome, minha idade, se eu era ‘disposto’. Respondi sim pra tudo. Ele só me deu as chaves, disse que eu começava à noite e que era pra eu ’tomar conta de tudo’. Nenhuma instrução, nenhum treinamento. Achei estranho, mas aceitei. A necessidade fala mais alto.
Meu primeiro turno foi… lento. As horas se arrastavam como melaço. Quase não apareciam clientes. Quando apareciam, eram figuras esquisitas. Um cara com um chapéu puxado até os olhos que só comprava pão de forma e leite, e pagava com notas amassadas que pareciam antigas. Uma mulher com um vestido florido desbotado que pegava sempre a mesma garrafa de azeite e sussurrava ’ele vai voltar’ enquanto eu passava o produto. Eu tentei puxar conversa, mas eles só me olhavam com um vazio nos olhos, como se eu não estivesse ali de verdade.
O ar dentro da mercearia era pesado, úmido. O barulho do refrigerador era um zumbido constante, quase um canto. De vez em quando, eu jurava ouvir passos no andar de cima, ou o ranger de tábuas no fundo da loja, onde ficava o estoque. Quando eu ia verificar, nada. Só as prateleiras abarrotadas de produtos que ninguém parecia comprar. Algumas embalagens eram tão velhas que a data de validade já não existia, ou o desenho era de um tipo que eu nunca tinha visto. Parecia que a Mercearia do Nunca vendia, de fato, coisas que não existiam em nenhum outro lugar, e que talvez nunca tivessem existido de verdade.
As Memórias das Prateleiras
Com o tempo, os turnos viraram uma rotina, mas a rotina era sempre a mesma, estranha. Comecei a notar que os produtos nas prateleiras mudavam. Não o tipo de produto, mas a marca, a embalagem. Eu tinha certeza de que tinha arrumado a prateleira de enlatados com um monte de sardinha de uma marca específica na noite anterior, e no dia seguinte, ou na ‘próxima noite’ — porque na Mercearia do Nunca era sempre noite, o sol parecia nunca nascer ali — estavam lá marcas diferentes, algumas até com rótulos em línguas que eu não entendia. E o cheiro de mofo se intensificava, misturado a um odor que eu não conseguia identificar, algo metálico, úmido, quase como sangue seco e água parada.
Os clientes também mudavam, mas não mudavam de verdade. Era como se fossem sempre as mesmas ‘figuras’, mas com rostos diferentes. O homem do chapéu que comprava pão e leite, agora era uma senhora de casaco pesado. A mulher do azeite, era um rapaz com um boné. Mas os produtos que compravam, as palavras que sussurravam, eram as mesmas. ‘Ele vai voltar’. ‘Eu preciso me lembrar’. ‘Só mais um pouco’. Eu comecei a me sentir como um ator num palco onde a peça nunca mudava, só os figurantes. E a cada interação, uma sensação estranha me invadia. Uma pontada de melancolia, um fragmento de uma tristeza que não era minha. Eu passava o pão de forma, e por um instante, sentia a fome de alguém, o desespero de alimentar uma família. Passava o azeite, e sentia a esperança de um reencontro, uma espera vazia que durava anos. Aquelas sensações ficavam comigo, pesadas, confusas.
Eu não via o Seu Elídio durante os meus turnos. Ele só aparecia de manhã, no que eu achava que era manhã, pra me pagar. Sempre em dinheiro, sempre notas antigas, amassadas, que pareciam ter rodado por cem anos. Eu tentava perguntar sobre as coisas estranhas, sobre os produtos, sobre os clientes, mas ele só me olhava com aqueles olhos vazios e dizia: ‘É assim que funciona, meu rapaz. As coisas têm que ser compradas. As histórias têm que ser passadas adiante.’ Era uma resposta que não respondia nada, e me deixava com mais perguntas ainda.
Uma noite, eu estava repondo as prateleiras de doces, e peguei uma barra de chocolate que parecia muito velha. O embrulho, aquele papel que parece cera, já estava desbotado, e a imagem de uma criança sorrindo na embalagem parecia fantasmagórica. Quando segurei o chocolate, uma onda de memória me atingiu. Não era minha. Era a memória de uma menina pequena, rindo, correndo por um campo, o gosto doce do chocolate na boca, e uma sensação de pura alegria. Mas a alegria logo se transformou em uma tristeza profunda, em um luto, na perda de algo insubstituível. Soltei a barra de chocolate como se ela queimasse.
Comecei a me questionar. Quem eram esses clientes? De onde vinham essas memórias? E por que elas pareciam tão vivas em mim? A Mercearia do Nunca não era só uma loja. Era um receptáculo, um lugar onde as coisas não morriam, mas se transformavam em produtos, em ecos de vidas passadas. E eu, eu estava no meio disso, virando um pedaço do inventário.
O Preço de Cada Compra
As memórias começaram a se misturar. Eu não sabia mais o que era meu e o que era dos ‘produtos’. Eu sonhava com campos que nunca vi, com pessoas que nunca conheci. Acordava na mercearia, no meio da noite, e por um segundo, não sabia meu nome. Ou olhava minhas mãos e via as mãos de outra pessoa, mais velha, com veias saltadas, ou mais jovem, com unhas pintadas de forma infantil. O meu reflexo nos vidros empoeirados das geladeiras parecia… diferente. Não era sempre eu. Às vezes, era um borrão, outras vezes, um rosto que parecia familiar, mas que eu não conseguia nomear.
Eu tentei ir embora. Uma noite, joguei as chaves no balcão e saí correndo. Corri pela rua escura, os postes piscando, o vento frio chicoteando meu rosto. Mas por mais que eu corresse, as luzes da Mercearia do Nunca pareciam sempre estar ali, no final da rua. Não importava a direção que eu tomasse, o contorno vermelho e desbotado da placa ‘ABERTO 24 HORAS’ me chamava. Eu caí de joelhos no asfalto, exausto, e olhei para trás. A mercearia estava lá, a poucos metros, os mesmos tijolos escuros, o mesmo ar pesado. Eu voltei.
Não tinha escapatória. Eu era parte daquele ciclo agora. Meu trabalho não era só passar produtos, mas ser um recipiente para as memórias que os acompanhavam. Cada transação era uma troca de pedaços de alma. Eu dava um troco e recebia um flash de uma vida que não era a minha. E a minha própria vida, minhas próprias lembranças, estavam sendo diluídas, apagadas, substituídas pelos ecos dos outros.
Na última noite, ou na que pareceu ser a última ‘minha’ noite, um cliente entrou. Um jovem. Cabelo liso, óculos, com um olhar de desespero familiar. Ele pegou um pacote de biscoitos de maisena, daqueles que vêm numa embalagem amarela e antiga. Quando ele veio ao balcão, meus olhos se fixaram na embalagem. Não era a lembrança de um campo, de uma tristeza. Era a lembrança de um anúncio de jornal, rabiscado à mão, pregado num poste. ‘Precisa-se de atendente noturno. Mercearia do Nunca. Pagamento em dinheiro. Urgente.’
Eu olhei para o jovem, e senti um arrepio gélido. Ele não estava ali para comprar biscoitos. Ele estava ali para… começar. Para substituir. Para ser a próxima parte do inventário. Eu senti um sorriso se formar nos meus lábios, um sorriso que não era meu, mas do Seu Elídio, ou de quem quer que estivesse operando aquela mercearia. Estendi a mão para ele, sentindo o peso das moedas na minha palma, e disse, com uma voz rouca que mal reconheci como minha:
‘Bem-vindo. Pode começar quando quiser. Temos muito trabalho. E as histórias… ah, as histórias nunca terminam aqui.’
E enquanto o jovem me olhava confuso, com o mesmo desespero que eu tinha sentido meses atrás, a porta da Mercearia do Nunca se abriu para mais uma noite, e eu soube que, no fundo daquelas prateleiras, em algum produto ainda não vendido, minha própria memória, a minha própria história, esperava para ser descoberta por um novo atendente. Eu era apenas mais um dos itens na prateleira da eternidade, comprado e vendido, uma e outra vez, na Mercearia do Nunca.
