O Chamado das Águas Mortas
O motor do meu velho Gol engasgou pela terceira vez, e eu soube que Águas Mortas não ia facilitar minha chegada. A estrada de terra, esburacada e cercada por vegetação rasteira, parecia engolir a si mesma, levando a um esquecimento verde-acastanhado. O sol já pendia no oeste, lançando sombras longas e distorcidas que faziam as árvores parecerem dedos esqueléticos a roçar o céu. Eu havia viajado por dois dias, guiado por um fragmento de mapa tão desbotado que mal se distinguia. Era um pedaço de um mapa topográfico do século XIX, mostrando uma anomalia peculiar na região onde hoje, supostamente, ficava o açude central de Águas Mortas: uma marca que parecia uma fenda, um círculo imperfeito no leito do rio que alimentava o que seria o açude. Isso bastava para acender minha curiosidade, uma brasa que sempre me empurrava para os cantos mais esquecidos do interior.
Estacionei o carro na praça principal, se é que se podia chamar aquilo de praça. Havia um banco de madeira lascada, um coreto decrépito e uma estátua sem rosto coberta de musgo. A cidade era silenciosa demais, o tipo de silêncio que não sugere paz, mas uma ausência. As casas, todas de alvenaria simples, algumas com a pintura descascando em tiras, pareciam manter os olhos cerrados. Nenhum carro na rua, nenhuma criança brincando. Apenas o vento, que assobiava uma melodia lúgubre entre os fios elétricos e as árvores secas. Um cheiro peculiar pairava no ar: uma mistura de mofo, terra úmida e algo metálico, como cobre enferrujado. Eu mal havia saído do carro quando senti um arrepio na espinha, um pressentimento que a razão tentava em vão dissipar. Era como se a própria cidade estivesse me observando, uma entidade coletiva de olhos invisíveis.
Encontrei uma pousada simples, o único lugar que parecia ativo. A velha Dona Aurora, com seu avental florido e rosto marcado pelo tempo, me recebeu com uma gentileza quase formal. Seus olhos, porém, guardavam uma melancolia profunda, como os de alguém que viu coisas demais, ou de menos. Perguntei sobre o açude. Ela apenas acenou com a cabeça, seus lábios se apertando em uma linha fina. ‘É o coração da cidade, moço’, disse ela, a voz um sussurro rouco. ‘Mas é um coração que bate devagar, e às vezes, para de vez’. Ela não elaborou, e eu não insisti. Era assim nas cidades esquecidas: lendas e meias-verdades eram como ervas daninhas, crescendo nas frestas da realidade.
Na manhã seguinte, decidi explorar. O açude não ficava longe, uma mancha cinzenta e turva que dividia a cidade em duas metades silenciosas. A água tinha uma cor estranha, um marrom-esverdeado opaco que não refletia o céu. Uma ponte de concreto, rachada e com barras de ferro expostas, unia as margens. Não havia barcos, nem pescadores, nem crianças brincando. Apenas o silêncio e o cheiro persistente de mofo e algo indefinível. Minha câmera estava pendurada no pescoço, mas a mão hesitou. Era como se fotografar aquelas águas fosse profanar algo, ou, pior, torná-lo real demais. Eu já estava começando a sentir uma estranha sensação de desorientação. Tinha certeza de que deixara meu carro ao lado do coreto, mas agora ele estava na rua de trás, virado para a outra direção. Um lapso de memória, imaginei, o cansaço da viagem. Mas a sensação de que algo não estava certo permaneceu, um pequeno nó de ansiedade no estômago. Eu me aproximei da margem, a terra úmida cedendo sob meus sapatos. A superfície da água era lisa, imóvel, um espelho que não mostrava nada, apenas o vazio. Aquele açude não era apenas um corpo d’água; era uma parede, uma barreira, e eu tinha a sensação de que, do outro lado, havia algo que não queria ser encontrado. Algo que já havia sido esquecido. E eu tinha medo de acordá-lo.
O Eco do Vazio
Os dias seguintes em Águas Mortas foram uma sucessão de estranhezas sutis, como notas desafinadas em uma melodia perfeita. Minhas anotações começaram a desaparecer. Pequenos trechos que eu tinha certeza de ter escrito sobre o açude se transformavam em rabiscos ilegíveis ou simplesmente sumiam, deixando páginas em branco. As fotos que tirei na chegada, as que mostravam o coreto e a estátua sem rosto, tornaram-se arquivos corrompidos na minha câmera, ou mostravam apenas borrões indistintos. Liguei para minha irmã, Clara, para compartilhar minhas descobertas iniciais, mas a voz dela soou distante, hesitante. ‘Leo? Você… você está bem?’, perguntou, a voz carregada de uma confusão que não era típica dela. ‘Há quanto tempo a gente não se fala? Eu… eu tive um sonho estranho com você esses dias, mas não consigo lembrar’. Um frio percorreu minha espinha. Era como se o tempo estivesse se curvando, ou como se uma névoa estivesse começando a se instalar entre mim e o resto do mundo.
Eu passei horas na margem do açude, estudando o mapa. A fenda, o círculo imperfeito, parecia mais nítida agora em minha mente do que no papel. Eu tentei sondar as águas com uma vara longa, sem sucesso. A profundidade era imensa, e a correnteza subterrânea, que eu sabia existir por relatos antigos, era inegavelmente forte, mesmo que a superfície estivesse calma. Comecei a caminhar pelas margens, explorando os terrenos úmidos. Foi então que encontrei os primeiros ‘artefatos’. Não eram tesouros, nem objetos antigos e valiosos. Eram coisas comuns: um botão de camisa de madrepérola, um pequeno canivete de cabo de osso, uma corrente fina de metal escurecido, talvez de um relógio de bolso. Objetos simples, corroídos pelo tempo e pela umidade, mas que exalavam uma estranha melancolia. Era como se cada um deles fosse a última âncora de algo ou alguém, e o açude os tivesse regurgitado, como se fossem indigestos, mas apenas depois de ter consumido o que representavam.
As pessoas de Águas Mortas continuavam a me tratar com uma cortesia estranha. Alguns me cumprimentavam como se fosse um novo rosto na cidade, mesmo depois de eu ter passado semanas ali. Outros pareciam olhar através de mim, como se eu fosse um fantasma que não havia percebido sua própria condição. Uma noite, no balcão da única venda que restava aberta, encontrei-me com um velho chamado Elias, que eu havia visto pescando (sem sucesso) em um trecho isolado do açude. Seus olhos, vermelhos e inchados, fitaram os meus com uma intensidade que me fez tremer. ‘O senhor é um forasteiro, não é?’, ele disse, a voz rouca, quase um sopro. Assenti. ‘Devia ter ficado onde pertencia’. Ele tomou um gole de cachaça, o copo tremendo em suas mãos enrugadas. ‘Este açude não foi feito para segurar água, moço. Foi feito para segurar o esquecimento. Nossos antepassados, eles jogaram tudo aqui. Pecados, vergonhas, gente. Tudo o que eles queriam que o mundo apagasse. E funcionou. Mas as águas… elas ficaram com fome. E agora, elas não se contentam mais com o que jogamos. Elas querem o que está do lado de fora. Elas querem mais para esquecer’. Elias olhou para o meu mapa, que eu havia deixado aberto sobre o balcão. Seus olhos pararam na fenda marcada. ‘Você não devia ter vindo com isso’, ele sussurrou, aterrorizado. ‘Você trouxe a memória de volta. E o açude… ele não gosta de ser lembrado. Ele vai querer apagar você também’. Eu senti um peso gelado no peito. A cidade não estava apenas me esquecendo; ela estava me reabsorvendo, me desfazendo, tornando-me parte daquele silêncio opressor.
A Reivindicação do Esquecido
O pânico me atingiu como uma onda fria. Tentei fugir. Peguei as chaves do carro, mas ao chegar na praça, não havia Gol algum. Apenas o coreto decrépito e a estátua sem rosto, o musgo mais denso que eu me lembrava. Não podia ser. Eu tinha certeza. Meus pensamentos estavam em frangalhos, as memórias se desfazendo como areia entre os dedos. Tentei ligar para Clara novamente. O telefone da pousada, que antes funcionava, agora só dava um sinal de linha ocupada, interminável. Tentei meu próprio celular; a tela estava escura, as informações de contato vazias. Era como se o mundo lá fora estivesse gradualmente perdendo a capacidade de me reconhecer.
Os artefatos que eu havia encontrado na margem do açude – o botão, o canivete – estavam agora sobre a mesinha da pousada. Ao invés de um canivete de osso, vi um pedaço de madeira disforme. O botão? Apenas uma lasca de concha. As palavras de Elias ecoaram na minha mente: ‘Você trouxe a memória de volta. E o açude… ele não gosta de ser lembrado. Ele vai querer apagar você também’. Eu não era uma vítima aleatória. Eu era o elo. Meu mapa, minha curiosidade, minha busca por algo perdido, havia reativado a fome do açude. A fenda não era uma mera anomalia geológica; era um portal para o esquecimento, e eu, com minhas memórias e meu desejo de desvendar segredos, era o antídoto que o açude precisava erradicar.
Comecei a sentir uma estranha leveza, como se meu corpo perdesse peso, as bordas da minha própria existência se tornando tênues. Fui até o açude. A ponte de concreto parecia um esqueleto decadente sob o céu cinzento. Olhei para a água, mais escura e turva do que nunca, e meu reflexo estava ali, mas não nítido. Era como uma pintura a óleo que começava a derreter, os contornos se misturando, as cores esmaecendo. Meu rosto parecia menos meu, menos real. Eu tentei gritar, mas apenas um chiado abafado escapou da minha garganta. O cheiro de mofo e cobre enferrujado era agora esmagador, o aroma do vazio que se aproximava.
Um último pensamento, fugaz, antes que também ele fosse puxado para o abismo: A fenda no mapa. O círculo imperfeito. Eu não havia apenas encontrado uma lenda; eu havia desenterrado a verdade. E a verdade era que o açude, faminto por esquecimento, não apenas consumia, mas se tornava a ausência. Ele apagava, e então se enchia com o vazio daquilo que não mais existia. E agora, estava se enchendo de mim. Minhas memórias se esvaíam como fumaça, meus laços com o mundo exterior se cortando um por um. Eu era a última memória que o açude precisava apagar para fechar o círculo, para estar completo novamente.
Meu reflexo na água turva sumiu por completo, deixando apenas a superfície opaca e indiferente. O açude de Águas Mortas parecia um pouco mais denso, um pouco mais escuro, um pouco mais silencioso. Ninguém na cidade me cumprimentaria mais como um recém-chegado, porque eu nunca estive lá. Meu nome não seria lembrado, minha história nunca contada. E o fragmento de mapa? Provavelmente, um pedaço de papel em branco, à deriva em algum lugar. O açude havia reivindicado seu esquecido, e eu me tornei parte do silêncio que, dali em diante, ninguém mais ousaria perturbar.
